terça-feira, 26 de junho de 2012

O caminho da cura da Leishmaniose Visceral Canina

ESTUDO TRAZ AVANÇO CONTRA A LEISHMANIOSE
Cientistas da UFMG desenvolvem tratamento para a forma canina da doença, aliando o remédio usado em humanos com a substância alopurinol. Nos primeiros testes, o índice de cura das cobaias chegou a 50%, mas os pesquisadores esperam melhorar os resultados. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) propõe uma nova forma de tratamento para a Leishmaniose visceral canina, que resulta em 50% de cura, além da quebra do ciclo de transmissão da doença para o homem. O estudo foi uma "dobradinha" entre pesquisadores dos departamentos de Fisiologia e Biofísica e de Parasitologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da instituição, que participam da Rede Mineira de Nanobiotecnologia e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanobiofarmacêutica.

A Leishmaniose é uma doença parasitária transmitida pela picada do osquito-palha (vetor), que, na sua forma visceral mais severa, tem no cachorro (hospedeiro) seu principal reservatório da Leishmania chagasi, protozoário responsável pela doença. No Brasil, são registrados cerca de 5 mil novos casos por ano em homens (nesse caso, a doença se chama Leishmaniose visceral humana). E estima-se que 5% da população canina do país esteja contaminada. Enquanto o tratamento em pessoas é feito com medicamento à base de antimônio, para o animal, o caminho é o sacrifício. Trata-se de uma medida controversa, já que em outros países, como a Espanha, os animais são tratados há mais de 50 anos.

A solução sugerida pela UFMG consiste no uso do mesmo remédio usado para os humanos, o antimonial pentavalente, associado ao alopurinol. Mais que o uso do medicamento humano, o principal responsável pelo êxito no tratamento é a forma como ele é administrado, por meio de lipossomas (que são cápsulas em escala nanométrica) que contêm o medicamento (antimônio).

Quem explica é Frédéric Jean Georges Frézard, pesquisador e professor de biofísica no ICB: "Os lipossomas são naturalmente capturados pelos macrófagos, presentes principalmente em órgãos como o fígado, o baço e a medula óssea. Como os macrófagos são células responsáveis por captar e eliminar os corpos estranhos do organismo para evitar infecções, em indivíduos infectados pela Leishmania, esses órgãos ricos em macrófagos são justamente os que concentram a maior parte dos parasitas. Em outras palavras, os lipossomas atingem em cheio o maior foco da doença".

Com a nova técnica, a absorção do fármaco nesses órgãos, que era de 0,1%, cresceu para 45%. Isso proporcionou o uso de uma dosagem cinco vezes menor, assim como a redução do intervalo das doses, que antes era a cada 12 horas e passou a ser a cada quatro dias. "Isso proporcionou ganho terapêutico e mais eficácia no tratamento", avalia Frézard.

Combinação

Mas, de acordo com a pesquisa, o simples tratamento com o antimonial, ainda que de forma mais eficaz, não é capaz de proporcionar a cura da doença, porque, no restante do corpo do animal, persistem alguns focos do parasita. O uso associado do medicamento alopurinol é que permite o combate a esses focos em todo o organismo.

Frédéric Frézard explica que a pesquisa teve início em 1998. Um dos principais desafios era quanto à estabilidade do lipossoma, ou seja, a manutenção de sua estrutura por tempo prolongado. Assim, foi desenvolvido um lipossoma em forma de pó. Instantes antes de injetar o medicamento no animal, esse pó é associado ao antimonial (em forma líquida). Essas "cápsulas" absorvem o medicamento para transportá-lo.

De acordo com o pesquisador, o objetivo agora é alcançar os 100% de cura. Ele adianta que espera melhorar os resultados usando antes o alopurinol, para reduzir os focos do parasita de maneira geral, para depois "entrar" com o antimonial na forma de lipossoma. Outro ponto é aprimorar as "cápsulas", de forma que elas permaneçam circulando por mais tempo no organismo, alcançando uma distribuição mais ampla. O processo pode ser usado em escala industrial.

Experimento

Um dos responsáveis pela parte prática do tratamento foi o pesquisador
Sydnei Magno da Silva. Ele conta que, para realizar a pesquisa, foram formados seis grupos de animais com diagnóstico de Leishmaniose visceral, cada um recebendo determinado tipo de medicamento para poder compará-los e concluir se o tratamento foi eficaz ou não. Os grupos foram divididos da seguinte forma: um de controle, que recebeu placebo; um ingerindo apenas o alopurinol; um recebendo alopurinol com lipossomas vazios; um recebendo apenas lipossomas vazios; um recebendo lipossomas com antimonial; e um tratado com o lipossoma com antimonial associado ao alopurinol.

"O tratamento consiste em seis doses do lipossoma com antimonial, uma a cada quatro dias, associado a 140 dias (uma cápsula ao dia) do alopurinol", explica Silva. Depois, foram feitos exames nos animais. Para confirmar a cura ou não, 60 dias após o tratamento, os testes foram repetidos. Também foi estudada a capacidade do animal transmitir a doença para o vetor, avaliada como nula. Além do percentual de 50% de cura, os outros 50% apresentaram melhora significativa, chegando a ter aproximadamente 600 vezes menos parasitas na medula óssea, revela o pesquisador.

Depois de concluir o estudo, os pesquisadores têm um novo desafio. É que em 2008, uma portaria interministerial (1426/2008), de autoria do Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, proíbe o tratamento da Leishmaniose visceral canina com medicamentos de uso humano. O documento alega diversas razões, algumas contestadas pelos pesquisadores  como a falta de um medicamento ou esquema terapêutico que garanta a eficácia do tratamento canino e a redução do risco de transmissão da doença a partir dos cães no período de tratamento. Há o temor também de que se desenvolvam organismos resistentes aos medicamentos disponíveis para o tratamento da Leishmaniose em seres humanos.

Fonte:
Estado de Minas - 11/06/2012
http://www.cfmv.org.br/portal/noticia.php?cod=2857

https://www.ufmg.br/boletim/bol1773/6.shtml

2 comentários:

  1. Matéria muito interessante, esxlarecedora e concientiza os tutores a não sacrificarem seus animais, pois já sabemos que existem tratamentos.

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