quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Desabafo de um caso clínico

Conheci a Preta quando ela já tinha meia idade. Um dia ela chegou aqui vomitando, bebendo muita água e urinando muito, foi quando descobrimos que ela tinha diabetes.

Nesses dois anos e meio após o diagnóstico de diabetes tentamos oferecer a ela qualidade de vida. Ela se adaptou muito bem a dieta oferecida, as aplicações de insulina duas vezes por dia, e isso só foi possível porque tinham humanos dispostos a fazer isso.

Ela ficou cega por causa da diabetes, mas ela acurou seus outros sentidos, o lugar da sua alimentação, o lugar de dormir, o banheiro e sabia muito bem onde ficava a porta da rua.

Ela odiava foguete.

Como a glicemia estava muito alta e ela tinha pseudogestações frequentemente, Preta foi preparada para a castração. Foi realizada uma curva glicêmica na sua residência e a cirurgia foi realizada.
O dia da primeira cirurgia foi um ato tenso, tenho certeza que a veterinária que me auxiliou, nunca vai esquecer esse dia, porque os nervos ficaram a flor da pele. Os minutos de atraso foram intoleráveis, a demora em ligar o pedículo foi eterna, pois tinha que ser tudo perfeito, uma sincronia que não estava tão sincronizada pela intolerância, isso tudo porque a paciente era idosa, diabética e porque havia me envolvido muito com o caso, e eu não queria perder a paciente. Enfim o paciente mais complicado desse dia deu tudo certo, a cirurgia foi um sucesso, o retorno anestésico foi um sucesso e a cicatrização espetacular.

Mas por falar em flores, o próximo paciente, era uma castração eletiva, jovem, exame laboratorial perfeito teve duas paradas cardiorrespiratórias, e sabe de quem era a cachorra? da minha tia. Aff Maria....deu o maior trabalho, eu nunca chorei tanto na minha vida, só de pensar me dá um nó na garganta, mas conseguimos reverter e disso tudo tiramos muito aprendizado.
Cinco meses após esse procedimento, Preta apareceu com a mama inguinal esquerda avermelhada, e a suspeita era carcinoma inflamatório maligno, ela foi encaminhada para oncologista e teve uma resposta muito boa a medicação, por isso tivemos pressa em operá-la.


Foi a cirurgia mais agressiva que já fizemos, toda a cadeia mamária foi removida, foram quatro horas de cirurgia, e a Preta resistiu a tudo.
Isso foi feito para dar qualidade de vida ao animal.

Alguns dias depois veio o diagnóstico definitivo da histopatologia: Carcinoma micropapilar com metástase para os linfonodos inguinais
Prognóstico péssimo.

Diante do que sabíamos de concreto, sua tutora é que me consolava com suas experiências, mas apesar de parecer durona sei que está sofrendo muito.
Nos primeiros dias após a cirurgia, a Preta foi rapidamente liberada para casa, pois aqui na clinica ela não estava confortável e corria o risco de contrair alguma infecção hospitalar. Foi a melhor opção feita. Os curativos foram feitos na casa dela, e nesse intervalo foram elaboradas várias técnicas para dar o melhor conforto para a Preta.

A recuperação foi fotografa e a cicatrização foi impressionante.

 
Sem dúvida nenhuma, esse foi um caso de amor inesquecível.  

Em um intervalo de 7 dias, Preta apresentava sinais de sofrimento como: cansaço, dor, inquietude, emagrecimento brusco, feridas na pele e sofrimento era o que não queríamos.
Sua tutora optou pela eutanásia, tenho certeza que não foi uma decisão fácil, e ela foi muito forte, por que desde que me formei, foi uma das poucas tutoras que acompanhou o procedimento de eutanásia.

Preta viveu muito bem 70 dias após a cirurgia e agora seu corpo descansa abaixo de uma sombra.
Você foi história na minha vida.
 

2 comentários:

  1. Priscila,
    Primeiramente agradeço a Deus por ter colocado você e toda sua equipe em minha vida e na vida da Preta.Como você disse apesar de demonstrar força sofri e ainda estou sofrendo muito.
    Mas ver essas fotos me fizerem muito bem, consegui até sorrir, como era linda a minha Pretinha! Forte, guerreira, minha companheirona, que realmente tinha pânico de foguetes, chegou a quebrar vários objetos em minha casa em momento de desespero, jamais briguei com ela, ao contrário procurava estar a seu lado, acariciando-a e tapando seus ouvidos com minhas mãos.
    Prometi a ela que levaria como última imagem(apesar de cega), sei que ela sentia o meu sorriso, carinho e ainda cantei a musica que sempre cantava para ela: Preta, preta, pretinha, foi ouvindo essa música que ela adormeceu, tranquila e em paz.
    Só depois me dei o direito de desabar.
    Graças a amigos consegui enterra-la com dignidade em uma casa vizinha, está coberta com seu virolzinho e debaixo de uma sombra, está pertinho de mim.
    Agradecer é pouco, você foi mais que a veterinária, foi amiga, companheira, dedicada, era perceptível seu amor por ela.
    Preta se foi, mas deixou a todos nós uma grande lição, a de que vale a pena tentar, lutar e amar.
    Ainda dói, dói demais, a saudade só aumenta, sei que o tempo tudo resolve, mas esquece-la jamais.
    Deus a abençoe Priscila e toda sua equipe e se por acaso algum dia precisar de mim seja para consolar alguem que estiver prestes a perder seu animal, ou mesmo dar depoimento e ou ensinar como cuidar corretamente de um animal que precise de cuidados especiais estarei aqui, sei muito pouco mas a experiência fala mais alto.
    O bom é que continuaremos o contato,pois ainda tenho mais dois que estarão sempre aos seus cuidados.
    VALEU, REPUBLICA DOS ANIMAIS.
    VALEU, PRISCILA E EQUIPE
    VALEU, PRETA POR ESSES QUASE 16 ANOS. TE AMAREI PARA SEMPRE.

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  2. Com a proximidade do natal e daqui a dois dias fazem dois meses que Preta nos deixou, bateu aquela saudade, angústia, vontade de chorar. Resolvi então visitar novamente essa página e reler, relembrar. Esse ano não terei você meu anjinho para tapar os ouvidos quando der meia noite, mas tenha certeza que estarei contigo em meu pensamento.
    Ainda está doendo muito, não sei até quando vou chorar por ti, só sei que te amarei para sempre.

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